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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Meio Ambiente:Tubarão 'pré-histórico' com 300 dentes capturado por acidente



Tubarão-enguia capturado
Image captionDentes do tubarão-enguia chamam atenção (Crédito: Marian Torres)

Quando os biólogos marinhos se depararam com ele na rede de pesca, viram de cara que não se tratava de um animal comum.
Não se parecia com nada que haviam visto antes. Tinha uma cabeça redonda e uma longa fileira de 300 dentes finos e afiados, típicos de um predador.
Em pouco tempo, constataram que estavam diante do Chlamydoselachus anguineus, chamado popularmente de tubarão-enguia, uma espécie pré-histórica pouco conhecida.
O animal foi capturado, em agosto, próximo a Algarve, no sul de Portugal.

'Fóssil vivo'

Embora seja considerado um "fóssil vivo", o tubarão-enguia é uma espécie que se encontra bem distribuída geograficamente. Está presente de Angola ao Chile, da Guiana à Nova Zelândia, da Espanha ao Japão.
Mas pouco se sabe sobre seus hábitos e o tamanho da sua população. Eles costumam viver a muitos metros de profundidade, o que torna difícil encontrá-los e monitorá-los.

Tubarão-enguia capturado
Image captionDiferentemente da maioria dos tubarões, esta espécie tem uma cabeça redonda, e não achatada (Crédito: Marian Torres)

No caso do tubarão capturado em Portugal, o animal foi apanhado por uma rede lançada a 700 metros de profundidade.
Mas o que o torna tão especial?

Sobrevivente

"Esse tubarão pertence à única espécie sobrevivente de uma família de tubarões em que todos os outros foram extintos", disse à BBC Margarida Castro, professora e pesquisadora do Centro de Ciências Marinhas da Universidade de Algarve.
"Alguns acreditam que essa espécie remonta ao período Jurássico tardio. Pode ser um pouco mais recente, mas, de qualquer jeito, estamos falando de dezenas de milhares de anos. Por isso, é muito antigo em termos evolutivos. Está na Terra certamente antes do homem", acrescenta.
Castro faz parte do projeto MINOUW, uma iniciativa para minimizar o desperdício de animais que são descartados nos navios de pesca europeus, o que explica a presença de pesquisadores em um barco de pesca comercial.

Predador

Embora a maioria dos tubarões tenha uma cabeça chata, e a do tubarão-enguia seja redonda, as barbatanas e toda parte inferior do corpo não deixam dúvidas de que se trata de um tubarão, e não de uma espécie de enguia.
Mas, segundo a pesquisadora, o que é realmente único neste animal são os dentes.

Tubarão-enguia capturado
Image captionAs barbatanas e a parte inferior do corpo permitem identificar que se trata de um tubarão (Crédito: Marian Torres)

"Ele tem uma grande fileira de dentes perpendiculares à mandíbula. São muito afiados, finos e apontam para dentro. Isso permite a ele pegar presas grandes e não deixá-las escapar, os dentes as impedem de sair", explica Castro.
"Claramente se trata de um predador muito agressivo", completa.
A espécie capturada em Portugal era um macho adulto de 1,5 metro de comprimento. Quando o animal foi retirado do mar, já estava morto.
"A partir dessa profundidade, a maioria dos peixes chega morta. A rede sobe muito rápido, e eles não sobrevivem à súbita mudança de pressão", esclarece.

Risco de extinção?

A escassez de informação sobre a espécie dificulta saber, inclusive, se ela corre risco de extinção.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN, na sigla em inglês) classifica o tubarão-enguia como uma espécie "quase ameaçada", devido ao receio de que a expansão da pesca em águas profundas aumente os casos de captura acidental.
Para Castro, no entanto, ainda é muito difícil responder se é realmente uma espécie ameaçada.
"Não sabemos qual é a proporção de captura. Se a taxa de pesca é proporcional ao quão rara é sua presença no oceano, então estamos diante de uma espécie ameaçada de extinção, mas não temos essa informação neste momento", aponta.
Com BBC
Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 5 de novembro de 2017

Após dois anos, impacto ambiental do desastre em Mariana ainda não é totalmente conhecido

Rio Doce atingido pela lama e rejeitos de desastre ambiental em 2015
Image captionParte do rejeito, formada por partículas muito finas, permanece em suspensão na água e é carregada pelas correntes | Crédito: Fred Loureiro/Secom-ES
Dois anos depois do rompimento da barragem de Fundão, na região de Mariana (MG), biólogos, geólogos e oceanógrafos que pesquisam a bacia do rio Doce afirmam que o impacto ambiental do desastre, considerado o maior do país, ainda não é totalmente conhecido.
Em 5 de novembro de 2015, 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro jorraram do complexo de mineração operado pela Samarco e percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio do Carmo até desaguarem no rio Doce. No total, a lama percorreu 663 km até encontrar o mar, no município de Regência (ES).
Ainda não é possível mensurar completamente a dimensão do impacto na natureza porque boa parte da lama continua nas margens e na calha do rio, dizem especialistas consultados pela BBC Brasil. E, ainda, parte dos rejeitos que chegou ao oceano continua sendo carregado pelas correntes marinhas.
Também não há ainda análises definitivas do monitoramento que vem sendo feito dos peixes e animais que voltaram a aparecer nos últimos dois anos. Não há dados seguros, por exemplo, que apontem se eles estão contaminados ou se são apropriados para consumo.
Área atingida pela lama no município de Mariana
Image captionA avalanche de lama matou praticamente todos os peixes do trecho do alto do rio Doce | Foto: Felipe Werneck/Ascom/Ibama
O plano de manejo do rejeito de minério de ferro elaborado pela Fundação Renova, que hoje responde pelas ações de reparação da mineradora Samarco e de suas controladoras, Vale e BHP Billiton, foi aprovado apenas em junho deste ano pelo Comitê Interfederativo (CIF). Presidido pelo Ibama, o CIF orienta e valida as decisões da fundação.
O projeto dividiu a área afetada em 17 trechos, que terão soluções diferentes, estudadas caso a caso. Em algumas regiões o rejeito será de fato removido, em outros, serão feitas intervenções corretivas e ele ficará onde está.
Nas áreas agricultáveis dos primeiros 60 km do percurso, por exemplo, a lama será aterrada e coberta por uma camada de areia, onde os produtores poderão voltar a cultivar.
"Essa é a parte mais otimista da coisa", diz o professor do departamento de engenharia agrônoma da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Carlos Schaefer, cuja pesquisa se concentra nas estratégias para recuperação ambiental do solo dessa região.
Ele estima que em aproximadamente cinco anos as áreas ribeirinhas do primeiro trecho atingido estarão restabelecidas.

Espécies 'invasoras'

Os pesquisadores concordam que é inviável retirar todo o rejeito que se espalhou ao longo da bacia, mas ponderam que, quanto mais tempo as ações de recuperação demorarem, maior o risco de que o rio volte a ser contaminado pela lama que ainda está nas margens, especialmente nos períodos de chuva.
Reservatório de Candonga , em Mariana (MG)
Image captionPrimeira etapa do programa de recuperação se concentrou nas barragens, para evitar novos desastres. Na imagem, o reservatório de Candonga | Foto: Felipe Werneck/Ascom/Ibama
Para evitar que isso acontecesse, diz Schaefer, a recuperação da mata ciliar - a vegetação que recobre as margens do rio e evita que a chuva leve sedimentos para o leito - deveria ter sido priorizada.
A restauração florestal prevista pela Renova, de acordo com o Ibama, ainda não começou. Por ora, o que estão sendo feitas são ações emergenciais para tentar evitar que a lama desça para o rio, com a plantação de gramíneas e leguminosas que teriam a função de manter a terra mais firme.
Para Carlos Sperber, professor do departamento de biologia da UFV, e Frederico Ferreira, ambos do grupo que pesquisa a regeneração da mata ciliar e do habitat aquático do rio Doce, a estratégia pode tornar ainda mais difícil a recuperação da vegetação devastada pela lama. "Essas são espécies 'invasoras' que podem se espalhar pelo curso do rio", pondera Ferreira.
A equipe também monitora em expedições periódicas a fauna do alto do rio Doce, mais próxima do local do desastre. A tragédia dizimou todas as 26 espécies de peixes que habitavam aquele trecho, diz Ferreira. "Praticamente todos os peixes morreram durante a avalanche".
Mais de um ano depois, em janeiro de 2017, apenas o lambari estava de volta. Passados alguns meses, o número de espécies subiu para quatro, provavelmente trazidas pelos afluentes.
Agente da Defesa Civil do Espírito Santo conversa com pescadores
Image captionPescadores e população ribeirinha foram fortemente afetados | Foto: Fred Loureiro/Secom-ES
A equipe espera ter os primeiros resultados a respeito da saúde dos peixes até o início de 2018.
O biólogo Dante Pavan, que faz parte do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (Giaia) e percorreu pelo menos duas vezes os mais de 600 km atingidos pela lama, lembra que o rio ficou seis meses sem luz, por causa da dissolução de parte do rejeito de minério de ferro, que coloriu a água de laranja. "Houve quase uma implosão do ecossistema".
Carlos Sperber e Frederico Ferreira ponderam que, ainda que o rejeito em si não tivesse uma concentração elevada de metais pesados, a avalanche de lama pode ter levantado muito material contaminado que estava depositado no fundo do rio, fruto de séculos de exploração da mineração na região, local do primeiro garimpo de ouro no Brasil.

Um mar de interrogações

Essa é uma das hipóteses levantadas para explicar a contaminação por arsênio, chumbo e cádmio de camarões e peixes na foz do rio Doce observada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e divulgada pelo Ministério Público Federal em abril do ano passado.
O impacto do desastre no ambiente marinho também não é totalmente conhecido, diz o geólogo Alex Cardoso Bastos, do departamento de oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santos (UFES). Isso porque a chamada pluma do rejeito - os sedimentos trazidos pelo rio - continua em movimento.
Parte da lama, ele diz, se depositou na região da foz, criando uma camada de 3 ou 4 cm de material no fundo. Em condições normais, o Doce deposita 1 cm no mar em um ano.
Outra parte, muito fina, ficou em suspensão na água, está sendo carregada pelas correntes marinhas e pode chegar a regiões de ecossistemas frágeis, como os corais.
Vista de Abrolhos (BA)
Image captionMicropartículas de ferro foram detectadas em Abrolhos (BA) | Foto: Agência Brasil
"Tem muita coisa ainda para ser diagnosticada, como a situação dos manguezais ao norte e as áreas de corais ao sul da foz", diz o geólogo.
Nesse sentido, ele destaca o estudo divulgado recentemente que mostrou a presença de micropartículas de ferro no arquipélago de Abrolhos, habitat das baleias jubarte que chegam ao Brasil, no sul da Bahia.
O rejeito de minério de ferro tem pelo menos três impactos ambientais na foz, explica o biólogo Ângelo Fraga Bernardino, que também é professor do departamento de oceanografia da UFES e estuda o impacto do desastre no ecossistema marinho.
A parte mais densa soterra o fundo e prejudica a vida dos organismos que vivem ali, como os bentos. A parcela mais fina, que chega a ter a consistência de um gel, diminui a penetração de luz e afeta o processo de fotossíntese do plâncton, ao mesmo tempo em que altera as condições químicas da água.
A grande barreira de corais, na Austrália
Image captionCorais e microorganismos do mar foram afetados pelo derramamento, mas a extensão dos danos ainda não é clara
Bastos lembra que, ainda que tenham passado dois anos do desastre, o rio pode continuar trazendo sedimentos para o mar, já que há uma quantidade relevante de lama depositada na calha do rio Doce.
"Quando a gente sobrevoa o rio hoje, ele está limpo. Mas se venta forte, por exemplo, o material do fundo ressuspende", ressalta o pesquisador.

O rio mais monitorado do país

A presidente do Ibama, Suely Araújo, afirma que a Agência Nacional de Águas (ANA) faz um monitoramento sofisticado do rio Doce e que os dados garantem a potabilidade da água no decorrer de todo o seu percurso. "Hoje o Doce é o rio mais bem monitorado do país", diz.
Além da qualidade da água, ela destaca que a primeira fase do processo de reparação ambiental que será feita pela Renova se concentrou na área onde aconteceu o desastre, na região das barragens de Candonga e Santarém, para mitigar o risco de novas tragédias.
"Essa etapa emergencial foi superada. Há programas mais avançados do que outros, mas nós estamos nos empenhando para que a recuperação seja feita", explica a presidente do Ibama.
Estão em curso agora os programas de recuperação de nascentes e o de manejo de rejeitos, com plantio de espécies para contenção da lama nas margens. O horizonte de recuperação florestal, ela diz, é de uma década.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 1 de outubro de 2017

O que não fazer no caso de um desastre


Avião em chamasDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionSegundo psicólogos, a mais natural resposta humana diante do perigo é simplesmente fazer nada

"Eu nunca me esquecerei do barulho. O som do metal sendo espatifado", conta George Larson, um dos passageiros do voo 440 da Indian Airlines que ia de Chennai para Nova Déli em 1973. Eram 22h30 - estava completamente escuro lá fora. Uma tempestade estava se armando e o avião voava baixo.
A parte traseira do avião atingiu o solo primeiro. Larson foi arremessado do seu assento. Enquanto isso, o avião continuava se movendo. Cabos elétricos soltavam faíscas e passageiros gritavam enquanto a fuselagem se partia em duas.
De repente, Larson estava acordado, deitado em cima de destroços. Ele tentou mover suas pernas, mas estava preso. Logo depois, quando o calor atingiu os tanques de combustível perto das asas da aeronave, houve uma explosão.
Enquanto destroços choviam em sua volta, Larson percebeu que precisava se salvar. Com um esforço derradeiro - "queimou meus pulmões, o ar estava muito quente" -, afastou os destroços e rolou para o chão. E então se arrastou para um local seguro.
Entre os 65 passageiros e tripulação a bordo, foi um dos 17 sobreviventes.
Na verdade, Larson teve muita sorte. Poucos minutos antes, tinha feito algo que não é aconselhado. Ele estava sentado na fila de trás, conversando com um comissário de voo. Apesar dos sinais de atar os cintos de segurança estarem ligados, ele os tirou. "Não havia motivo algum, eu simplesmente não o fiz", diz. A maioria das pessoas que desata o cinto antes de um acidente de avião não sobrevive.
No entanto, depois do acidente, Larson teve o raciocínio rápido e a coragem de rastejar para um lugar seguro antes que o fogo se espalhasse.

Aviso de cinto de segurançaDireito de imagemALAMY
Image captionQuem não usa o cinto de segurança tem cerca de quatro vezes mais chance de não sobreviver a um acidente de avião

Surpreendentemente, muitas pessoas em cenários mortais como esse não agem rápido o bastante para salvar suas próprias vidas. Desde discutir sobre alguma bobagem enquanto um navio afunda em meio a uma tempestade até ficar parado na praia diante de um tsunami, há anos psicólogos sabem que as pessoas tomam decisões autodestrutivas quando estão sob pressão.
Apesar de os noticiários focarem em milagres de sobrevivência, escapar com vida geralmente não depende das ações que se toma.
"Um treinamento de sobrevivência não é tanto sobre treinar as pessoas para fazer algo - você está sobretudo treinando-as para não fazer algumas coisas que elas normalmente fariam", diz John Leach, psicólogo da Universidade de Portsmouth que em 1987 sobreviveu à tragédia do incêndio da estação King's Cross, em Londres. Sua estimativa é que entre 80% e 90% das pessoas respondem a uma crise de maneira inapropriada.
Gravações do terremoto no Japão em 2011 mostram pessoas arriscando suas vidas para evitar que garrafas de bebida alcoólicas caíssem no chão em um supermercado. E quando um avião pegou fogo em um aeroporto em Denver (EUA), em julho deste ano, passageiros permaneceram na aeronave para ver as chamas e tirar selfies.

Destroços do terremoto de 2011 no JapãoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEm 2011 no Japão, pessoas em supermercados se preocuparam mais em evitar que bebidas alcooólicas se quebrassem do que com sua segurança

E não é uma questão de inteligência - a cortina de fumaça que o cérebro cria em situações de emergência afeta a todos.
Em 2001, um professor da Universidade de Cambridge estava andando de caiaque nos mares agitados da Ilha de Wight, na costa britânica, quando este virou. Apesar de ter um celular a bordo, se agarrou ao caiaque virado por cerca de 20 minutos antes de se lembrar disso. Quando finalmente o achou, primeiramente ligou para sua irmã, que estava em Cambridge, e então a seu pai, que estava em Dubai, a mais de 5 mil km de distância.
Em certo ponto ele foi resgatado, depois que seus familiares alertaram a Guarda Costeira.
Mas se um dia você enfrentar uma situação dessas, que comportamentos é melhor evitar? Veja a lista do que NÃO fazer e, mais abaixo, de como agir nessas situações:

Celular mostrando acidente de aviãoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionQuando um avião caiu em Dubai no ano passado, os passageiros pararam para pegar suas malas enquanto a aeronave pegava fogo

1. Congelar

Quando pensamos em desastres, tendemos a imaginar uma histeria em massa. Nos filmes, as pessoas saem correndo agitando os braços. Mas a realidade é que a mais natural resposta humana diante do perigo é simplesmente não fazer nada.
Durante um dos mais recentes atentados em Londres, em junho, um policial que enfrentou os extremistas descreveu as pessoas no local "como coelhos parados diante de um lobo".
Apesar de parecermos passivos, quando estamos paralisados de medo o cérebro está puxando os freios. Conforme a adrenalina aumenta pelo corpo e nossos músculos tensionam, o primitivo cerebelo na base dos nossos pescoços envia um sinal para nos manter ligados à realidade.
É o mesmo mecanismo presente no reino animal, de ratos a coelhos, uma tentativa de último minuto de impedir um predador de nos notar. Mas em um desastre, enfrentar essa "ressaca" de nossos dias na savana é vital para a sobrevivência.

O incêndio na estação de metrô de King's Cross em LondresDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO incêndio na estação de metrô de King's Cross, em Londres, matou 31 pessoas em 1987

2. Agir sem pensar

As primeiras pistas de que nossos cérebros tendem a entrar em crise sob estresse chegaram a partir de uma descoberta alarmante.
Durante a Guerra do Golfo, no começo dos anos 1990, Israel estava se preparando para atacar o Iraque. Cientes do intenso uso de gás venenoso pelo Exército iraquiano nos anos 80, o governo israelense se preparava para o pior. Máscaras de gás e autoinjetores com o antídoto foram distribuídos para a população inteira. Famílias israelenses foram instruídas a criar uma sala segura e selada em suas casas. Quando soava um alarme, as pessoas deveriam se instalar ali - e então usar máscaras de gás.
Entre 19 e 21 de janeiro, aconteceram 23 ataques. Em todos eles, mais de 11 mil quilos de explosivos pesados foram jogados sobre a população da cidade de Tel Aviv.
Apesar da ausência de armas químicas, mais de mil pessoas ficaram feridas. Mas não da maneira como você imagina. Uma observação mais minuciosa a respeito das admissões em hospitais revelou que apenas 234 (22%) dos ferimentos tinham relação direta com uma explosão. A grande maioria - mais de 800 pessoas - ficou ferida durante um dos vários alarmes falsos.
Isso incluía 11 casos de morte, sete causados por colocar uma máscara de gás e esquecer de abrir o filtro. Centenas de pessoas injetaram o antídoto do gás venenoso apesar de não terem sido expostas a ele. Outras 40 (a maioria delas fraturas ou torções) ocorreram enquanto as vítimas corriam para o quarto.
O que estava acontecendo?
Até mesmo nos melhores momentos, nossos cérebros são muito lentos - enquanto os desastres são rápidos. Como parte do processo de certificação, os fabricantes de aviões precisam mostrar que o avião inteiro pode ser evacuado em apenas 90 segundos, já que estudos mostraram que o risco de a cabine ser tomada pelo fogo aumenta nesse momento. Nesse meio tempo, a maioria de nós ainda estaria atrapalhada com os cintos de segurança.

Ataques de 11 de setembroDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDepois dos ataques de 11 de setembro, sabemos que as pessoas que estavam nos andares mais altos esperaram cinco minutos em média antes de evacuar o local

Isso está relacionado à forma como tomamos decisões. Por exemplo, o xadrez. O vocabulário típico de um mestre de xadrez inclui cerca de 50 mil movimentos - se o cavaleiro está no quadrado x, faça y. Os primeiros movimentos do jogo podem acontecer em poucos segundos. Mas conforme o jogo anda, há mais posições possíveis para as peças no tabuleiro. Por exemplo, depois de cinco movimentos, há mais de 288 bilhões de combinações.
Depois de um tempo, os jogadores não podem mais depender de estratégias pré-programadas e devem pensar por si próprios. Aí o jogo fica bem mais devagar. Enquanto os primeiros movimentos levam segundos, um típico jogo de xadrez profissional (com cerca de 40 movimentos) pode demorar mais de uma hora e meia.
Isso porque inventar uma nova estratégia depende da memória em funcionamento, que é responsável por guardar informações temporariamente enquanto tomamos decisões. "O cérebro tem uma capacidade muito limitada para processar informações novas", diz Sarita Robinson, uma psicóloga da Universidade Central de Lancashire.
Em um desastre, a velocidade com que pensamos nas nossas opções vai de mal a pior. A primeira reação do cérebro é nos inundar com o hormônio dopamina, do bem-estar. Isso pode parecer contra-intuitivo, mas apesar de geralmente estar associada com recompensas, a dopamina também tem um papel crucial no preparo do corpo para encarar o perigo. Ela provoca a liberação de mais hormônios, incluindo adrenalina e o químico de estresse cortisol.
E é aí que começa a bagunça. Esse coquetel de hormônios bloqueia o córtex pré-frontal, que fica atrás da testa e é responsável por funções como a memória em funcionamento. Justamente quando mais precisamos da nossa engenhosidade, ficamos esquecidos e com a tendência a tomar decisões ruins.

XadrezDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionComo no xadrez, a velocidade da capacidade de tomada de decisão em uma crise é limitada pela nossa memória em funcionamento

3. Ter "visão em túnel"

Em uma crise, é reconfortante pensar que vamos reagir pensando criativamente. Mas é justamente o contrário. Uma resposta típica a um desastre é a chamada "perseverança" - tentar resolver um problema de uma maneira única de novo e de novo e de novo, sem se importar com os resultados. Isso acontece com tanta frequência que determinou o design dos cintos de segurança no avião.
Como as pessoas estão acostumadas a procurar pelo cinto de segurança ao redor de seus quadris, em uma emergência esse é o único lugar onde elas procuram. Propostas anteriores tinham a fivela um pouco acima dos quadris, mas por causa do pânico de cair no solo, as pessoas não conseguiam lidar com isso. Outros incidentes mostraram que, em uma crise, os pilotos tendem a ficar obcecados com apenas um item do equipamento de resposta.
Essa visão em túnel também é vista nas pessoas com dano permanente no córtex pré-frontal, o que sugere que a resposta do cérebro ao estresse desliga essa região, o que explicaria esse pensamento nada flexível em momentos de crise.

4. Ficar preso à rotina

Depois de anos trabalhando com as pessoas para aumentar a consciência a respeito de tsunamis em áreas de risco elevado, James Goff, especialista em administração de desastres e emergências da Universidade do Havaí, viu muitas reações inacreditáveis a momentos de crise.
Arriscar sua vida por sua carteira em um assalto parece loucura ou simplesmente estupidez. Mas é algo extremamente comum - tão comum que os psicólogos de sobrevivência têm uma palavra para isso: "comportamento estereotípico". Entre os animais, o termo se refere a rotinas repetitivas e aparentemente inúteis, como andar para cima e para baixo em um zoológico.
Nos humanos, isso se refere ao desconcertante fenômeno de continuar com as rotinas diárias mesmo quando, por exemplo, a sua casa está pegando fogo. "Quando você sai de casa, pega sua carteira - você nem pensa nisso. É automático", diz Goff.

InundaçãoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEm uma situação de emergência, as pessoas tendem a agir como se nada estivesse acontecendo

Quando o voo 521 da companhia aérea Emirates se acidentou no Aeroporto Internacional de Dubai no ano passado, apareceram vídeos de passageiros vasculhando o avião em chamas atrás de suas bagagens nos compartimentos acima do assento. Por sorte, nenhum passageiro morreu como resultado disso (apesar de um bombeiro ter morrido ao combater o incêndio).
Por que não conseguimos desligar esses reflexos?
Parece que, na nossa vida diária, nossos cérebros dependem da familiaridade. Em situações normais, procurar nossas malas quando o avião pousa ajuda a liberar espaço mental para focar em coisas que não vivenciamos antes - como navegar no aeroporto de uma cidade estrangeira. "Nós estamos no presente, mas estamos olhando para o futuro pela rotina", diz Leach.
Situações novas são mentalmente penosas, e nós trabalhamos para construir um novo modelo de mundo ao redor de nós - fato que pode explicar por que tendemos a nos sentir tão cansados quando estamos no exterior ou quando começamos um novo emprego. Em uma emergência, ajustarmos à nova situação pode ser mais do que nossos cérebros podem suportar. Em vez disso, tendemos a continuar nossas vidas como se nada estivesse acontecendo.

5. Negação

Em situações extremas, isso pode significar ignorar completamente o perigo. "Invariavelmente, mais de 50% da população faz isso, as pessoas vão até o mar assistir ao tsunami", diz Goff. Ele tem fotos de pessoas assistindo ao tsunami no Oceano Índico em 2004, tirada por uma pessoa que estava correndo para subir para um local mais elevado.
De acordo com Robinson, a negação geralmente ocorre por dois motivos, ou porque a pessoa não consegue interpretar a situação como perigosa ou porque simplesmente não quer fazer isso. O último é extremamente comum em casos de incêndio, já que evacuar nossas casas significa entregá-las às ruínas.
"As pessoas tendem a esperar até verem a fumaça - e isso frequentemente significa que é tarde demais para sair. Então elas ficam presas na casa ou arriscam morrer queimadas tentando escapar", diz Andrew Gissing, especialista em administração de riscos de emergência na consultoria Risk Frontiers.

Incêndio em PortugalDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDurante os incêndios recentes em Portugal, muitas pessoas morreram tentando escapar no último minutos

Há décadas os cientistas sabem que a maioria de nós é péssima em calcular riscos. Quando há muito em jogo, nossos cérebros tendem a depender mais de sentimentos do que de fatos, banindo pensamentos estressantes e nos confortando ao explicar os perigos. Isso pode explicar por que pacientes de câncer esperam em média quatro meses antes de ter seus sintomas examinados por um médico ou por que as pessoas nos andares mais altos do World Trade Center esperaram em média 5 minutos antes de começar a sair.
Yossi Hasson vivenciou em primeira mão a sensação de negação da realidade de um desastre. Em 2004, ele e sua namorada mergulhavam na Tailândia quando aconteceu o tsunami. Eles estavam embaixo da água, no meio do mar, a vários quilômetros da praia quando o tsunami chegou: "de repente eu senti como se houvesse sido empurrado com força e então eu não conseguia controlar mais nada".
Apesar da aparência de destruição completa do litoral, com destroços e corpos flutuando por tudo, Yossi se viu perguntando se eles poderiam voltar ao hotel para pegar suas bagagens. "O motorista do barco disse 'gente, o hotel de vocês provavelmente não existe mais'".

Praia na TailândiaDireito de imagemMICHAEL SPENCER/ WIKIMEDIA COMMONS
Image captionQuando o tsunami de 2004 aconteceu na Tailândia, ainda havia pessoas na praia

O que você deve fazer em um desastre

A esse ponto, você provavelmente está se perguntando: se não podemos depender dos nossos instintos naturais, com o que podemos contar?
Para Goff, para você sobreviver a um desastre natural você precisa ter um plano. "Se você sabe com antecedência o que você está fazendo e começa a fazê-lo cedo, provavelmente consegue sobreviver a um tsunami", diz ele. "Mas pode ser um pouco difícil".
Leach tem anos de experiência treinando exércitos para escapar de cenários aterradores - de tomadas de reféns até helicópteros que caíram na água (dica: fique no seu assento até que a fuselagem tenha sido inundada pela água e virada de ponta cabeça, então saia no último minuto para evitar ficar preso no motor ainda em funcionamento).
Ele sabe que o melhor jeito de sair de uma pane mental é substituir reações automáticas que não ajudam em nada por outras que podem salvar a sua vida. "Você precisa praticar e praticar até que a técnica de sobrevivência seja o comportamento dominante", diz ele.

…Mas às vezes a sorte faz a diferença

E quanto a Larson, que sobreviveu à queda do voo 440? No fim das contas, o maior perigo para esse sobrevivente não foi o desastre em si, mas o que aconteceu depois. Ele acabou sendo encontrado por moradores locais, que o levaram para o hospital. Ele saiu de lá com queimaduras de primeiro e segundo grau, pélvis quebrada, um braço destruído e danos sérios na bexiga.
Para garantir que ele não tivesse outro ferimento interno, os médicos fizeram uma cirurgia exploratória. Semanas depois, ele havia perdido peso e a ferida ainda não estava curando. Em um palpite, de volta aos EUA, o médico quiroprático de Larson abriu os pontos e usou seus fórceps. "Ele tirou uma gaze enrolada de 30 centímetros e 30 dias de idade dali". Foi uma descoberta feliz - se tivesse continuado ali, suas chances não seriam boas.
Preparação, agir rápido, esquecer rotinas e evitar a negação podem ser maneiras de viver um pouco mais caso aconteça o pior dos cenários - mas, como sugerem as experiências de Larson, às vezes você também precisa de uma boa dose de sorte também.
Professor Edgar Bom Jardim - PE