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sábado, 19 de agosto de 2017

A sexualidade feminina na terceira idade

Três britânicas que participaram do programa Daily, da rádio 5 Live da BBC
Image captionEssas três britânicas falaram com sinceridade sobre a sexualidade na terceira idade
Joyce, Shirley e Dee são três britânicas de 82, 61, 69 anos, respectivamente. Ao programa Daily, da rádio BBC 5 Live, elas falaram sobre um tema que é um tabu quase universal: a sexualidade na terceira idade.
Uma enquete realizada pelo próprio programa no Reino Unido sugere que pessoas entre os 60 e 70 anos têm relações sexuais várias vezes por mês.
Além disso, segundo o levantamento, esse número se mantém alto quando as pessoas envelhecem: uma em cada seis pessoas de mais de 70 anos diz que faz sexo várias vezes ao mês.
A seguir, a BBC reuniu alguns dos momentos mais interessantes do programa.

Como são os orgasmos quando você é mais velho?

Essa foi uma das perguntas que a apresentadora do programa, Emma Barnett, fez às três britânicas. Elas se mostraram quase unânimes:
"Provavelmente melhor", respondeu Shirley. "Eu também acho", diz Dee. Melhor aos 80 que aos 20 anos de idade? Joyce respondeu, convicta: "Sim, acredito de verdade que é melhor".
Para elas, uma das razões que explicam o prazer maior na terceira idade é o conhecimento do próprio corpo. Segundo Dee, com a velhice, ela passou a se preocupar menos com a opinião dos outros. "Eu já cresci, já cometi meus erros e já aprendi as lições. Você se sente mais confortável com a pessoa que é. Antes eu não tinha tanta confiança em mim mesma", diz ela.
Com a idade, "você controla mais o que quer", diz Shirley.
As três concordaram: o conhecimento do próprio corpo ajuda na busca pelo prazer e a ter confiança de dizer e "mostrar-se" ao parceiro. Além disso, elas dizem que hoje são menos estressadas e não têm preocupações com a gravidez.
Idosos se beijandoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUma pesquisa da BBC no Reino Unido sugere que pessoas entre os 60 e 70 anos têm relações sexuais várias vezes por mês

Quais as diferenças com as relações sexuais de quando se foi mais jovem?

"Nós rimos muito. Há muito rangidos e gemidos, e também posições desconfortáveis. Mas nós tratamos com humor", diz Joyce, que vive com seu marido, também octogenário. Ela conta que os dois chegaram a fazer sexo duas vezes por dia.
"Não tem mais aquela ansiedade de se fazer um show", brinca ela. Segundo Joyce, os jovens enxergam o sexo como algo que gira em torno da beleza, do glamour, de barrigas definidas e pele perfeita. "Quando você fica mais velho, o que importa é o contato humano."
As três concordam quando falam sobre prazer e sensibilidade. "A sensualidade não muda com a idade. A excitação e o prazer são os mesmos. É bom da mesma forma, talvez com os níveis de hormônios mais baixos", diz Joyce. "Sem dúvida, a grande diferença é o tempo. Você tem mais tempo quando está aposentado".
Shirley não tem um parceiro desde o ano 2000, mas diz ter uma vida plena e feliz. "Eu me masturbo", afirma. Ela diz que não sente falta de um companheiro, porque não encontrou a pessoa certa.
"Posso dar prazer a mim mesma e não preciso fazer concessões", diz. Ela conta que chama a atenção dos homens, mas que não está interessada em sexo rápido e selvagem, como quando era jovem. "Não estou interessada em soluções rápidas. Quero uma vida plena", explica.
Dee, Shirley y Joyce falando co, Emma Barnett, a presentadora de BBC Radio 5 Life
Image captionAs três britânicas disseram ao programa Daily, da rádio 5 Live, que sexo depois dos sessenta é mais prazeroso

Como se sentiria ao ficar nua na frente de alguém pela primeira vez aos 70 anos?

"Talvez eu precise tomar um par de taças de vinho", brinca Dee. Depois, no entanto, ela conta que disse a si mesma "Quer saber, Dee? Está tudo bem. Não é perfeito, você tem sua barriga e suas rugas, mas está tudo bem."
Ela acrescenta: "E se a pessoa não pode ver o quanto sou boa, o problema é dela".
Shirley aponta que as mulheres jovens têm muitas inseguranças sobre sua aparência. "Isso melhora com os anos", diz.

Uma mensagem para as jovens: 'o espírito segue com 18 anos'

"À medida que você envelhece, continua se sentindo jovem, muito jovem, isso não muda", diz Joyce. "Quando você tem 80 é como se tivesse 18, só que com mais rugas e peças raras no corpo. Mas você ainda é a mesma pessoa."
Ela dá uma dica sobre as rugas: "Eu diria às jovens que não se preocupem com as rugas. A atração está em como você é, no brilho dos olhos e na alegria de viver que você irradia. E isso dura até os 90".
"Talvez depois dos 90 você fique um pouco debilitada", afirma.
Shirley discorda: "Talvez não". Sorrindo, Joyce agora muda de opinião: "É, talvez não".
Professor Edgar Bom Jardim - PE

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Hospital de Câncer promove simpósio


A terceira edição do Simpósio em Oncologia começa nesta sexta (18) terá mesas e conferências com especialistas renomados para discutir as perspectivas e o futuro do tratamento do câncer. O evento é promovido pelo Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP) até o sábado (19) e deve reunir mais de 200 estudantes de profissionais da área de saúde. A programação completa está disponível no site do HCP.

Um dos palestrantes é o médico Renato Martins, professor de Medicina e diretor da área de tumores sólidos do Seattle Cancer Care Alliance/Universidade de Washington. Vindo dos EUA, o professor abordará, ainda, a pesquisa clínica em Oncologia e o tratamento de cânceres de cabeça e pescoço metastáticos.

SERVIÇO
III Simpósio em Oncologia
Data: 18 e 19 de agosto
Local: Hotel Courtyard by Marriott, em Boa Viagem

Professor Edgar Bom Jardim - PE

terça-feira, 25 de julho de 2017

Queda na contagem de espermatozoides em homens pode levar à extinção humana, aponta pesquisa



Espermatozoides vistos no microscópio eletrônicoDireito de imagemJUERGEN BERGER/SCIENCE PHOTO LIBRARY
Image captionPesquisa analisou 185 estudos de diferentes partes do globo

O ser humano pode ser extinto se a quantidade de espermatozoides no esperma dos homens continuar a cair no ritmo atual, segundo um estudo liderado por um pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Um grupo de sete especialistas de diversas universidades ao redor do mundo se uniu para analisar os resultados de 185 estudos diferentes da América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Eles concluíram que a contagem de espermatozoides entre homens dessas regiões caiu pela metade nos últimos 40 anos.
Houve uma queda de 52,4% na concentração de espermatozoides e uma diminuição de 59,3% na contagem total das células reprodutivas no esperma de homens dos locais estudados.
O estudo também aponta que a taxa de declínio continua alta e pode possivelmente estar aumentando.
Os resultados foram publicados no Human Reproduction Update, uma publicação sobre reprodução humana. O pesquisador chefe, Hagai Levine, diz que seu estudo é um dos maiores já feitos sobre o assunto - foram avaliados 185 artigos científicos feitos entre 1973 e 2011.
Levine, que é epidemiologista, diz que ficou "muito preocupado" com o que pode acontecer no futuro. Segundo ele, se a tendência continuar, o ser humano pode ser extinto.
"Se não mudarmos a forma como estamos vivendo, a maneira como nos relacionamos com o ambiente e os produtos químicos aos quais estamos expostos, eventualmente podemos ter um problema grande relativo à nossa reprodução. E ele pode levar ao fim da espécie humana", afirma.

Céticos

Cientistas que não participaram do estudo elogiaram a qualidade da pesquisa, mas dizem que essa conclusão alarmista pode ser prematura, já que nenhum declínio foi encontrado no esperma de homens da América do Sul, da Ásia e da África.
Os pesquisadores liderados por Levine, no entanto, apontam que nesses continentes não houve um número significativo de estudos conduzidos até agora.
Análises anteriores indicaram quedas similares na contagem de espermatozoides em países em desenvolvimento, mas céticos afirmam que uma grande parte dessas pesquisas tinham problemas. Algumas tinham uma amostra muito pequena de pessoas estudadas, enquanto outras incluíam apenas homens que visitaram clínicas de fertilidade, ou seja, tinham maior chance de ter baixa contagem de espermatozoides, dizem.
Também existe a preocupação de que estudos que apontam a queda tenham uma maior chance de ser publicados em revistas científicas do que os que indicam o contrário.


Ilustração de espermatozoides a caminho do úteroDireito de imagemSCIENCE PHOTO LIBRARY
Image captionPara cientistas que fizeram parte do levantamento, números são alarmantes

Outra dificuldade é que antigos métodos de contagem podem ter superestimado os números.
Segundo essa parte da comunidade científica, todos esses fatores juntos podem ter criado uma falsa visão de queda na contagem.
Os pesquisadores dizem, no entanto, que levaram em conta essas questões. E até conseguiram deixar alguns céticos, como o professor Allan Pacey, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, menos desconfiados.
"Eu nunca fui convencido pelos estudos publicados com esse tipo de resultado, mas o feito por Levine e seus colegas resolve muito bem os problemas encontrados nas pesquisas anteriores", diz.

Cigarro e obesidade

Pacey afirma que, embora o novo estudo tenha reduzido a possibilidade de erros, ele não acabou 100% com ela. Então, segundo ele, os resultados têm que ser lidos com cuidado.
"O debate não está concluído e ainda há muito trabalho há ser feito. No entanto, o novo artigo de fato é um avanço no sentido de lidar mais claramente com os dados e pode ser um primeiro passo no caminho de elaborar novas pesquisas para entender melhor essa questão", avalia.
Não há evidências concretas sobre o que poderia estar causando esse declínio aparente. Mas ele já foi relacionado à exposição à produtos químicos usados em pesticidas e plásticos, à obesidade, ao cigarro, ao estresse e até ao excesso de tempo passado em frente à TV.
Levine diz que existe urgência em descobrir por que o número de espermatozoides está caindo e descobrir maneiras de reverter essa tendência.
"Precisamos tomar uma atitude. Por exemplo, estabelecer regulações melhores de produtos químicos produzidos pelo homem. E precisamos continuar com nossos esforços para combater o cigarro e a obesidade."
BBC
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quinta-feira, 6 de julho de 2017

BOM JARDIM: quantos jovens desconfiam terem sido infectados pelo HIV/Aids


Lucas Patrick MachadoDireito de imagemEMANOELE DAIANE/BBC BRASIL
Image captionLucas Patrick Machado convive com o HIV há três anos e desistiu de denunciar transmissão intencional por dificuldade de apuração

Lucas Patrick Machado, de 24 anos, conheceu Celso* em uma rede social, em julho de 2014. Ambos vivam em Cáceres (MT), trocaram mensagens por duas semanas e marcaram um jantar no final daquele mês.
"Ele sempre dizia que eu era bonito, legal, que queria me conhecer e que poderíamos ficar juntos. Por isso decidimos sair", lembra Machado. O encontro terminou em um motel, onde mantiveram relações sexuais com preservativo.
"Eu tinha dito que estava sem camisinha e pedi a ele que levasse, porque estava sem dinheiro." Após a primeira relação, Machado estranhou a postura de Celso, que não demonstrou interesse em manter contato.
"Depois que a gente transou, ele se levantou correndo e jogou a camisinha fora. Fomos embora e ele me deixou em casa. Não nos falamos mais nas semanas seguintes. Senti-me usado, porque achava que a gente poderia ter algo sério", diz.
Um telefonema, três meses após o encontro, abalaria Machado, que receberia alta hospitalar naquele dia após um procedimento cirúrgico simples.
"Ele me ligou e eu disse que estava no hospital porque tinha feito uma cirurgia. Então o Celso sugeriu que eu aproveitasse para fazer um exame de HIV, porque ele tinha me deixado um presente na noite em que a gente ficara", conta o rapaz.
Horas mais tarde, Machado recebeu resultados de exames pré-operatórios que havia feito. "O médico confirmou que eu era soropositivo. Fiquei estático. Na hora percebi que talvez ele tivesse furado a camisinha. Para mim a vida tinha acabado."
Apesar de acreditar que tenha sido alvo de transmissão intencional do HIV, ele optou por não denunciar Celso. "Eu tinha 21 anos e não tinha maturidade para pensar em denúncia. Se ocorresse hoje, talvez eu denunciasse. Mas acho muito complicado levar casos assim adiante, porque é muito difícil provar", diz.
Embora sejam fatos isolados dentro de uma população de 827 mil pessoas vivendo com HIV no Brasil, situações como a de Lucas expõem o dilema de soropositivos diante da dificuldade de apuração e o preconceito comumente embutido nesses casos.

Punições em debate

A transmissão de doenças venéreas ou graves já é crime no Brasil. O Código Penal prevê pena de até um ano de prisão a quem expõe o parceiro a doença venérea sabendo que está contaminado - caso a exposição seja intencional, a pena sobe para até quatro anos de cadeia.
No caso do HIV, uma decisão de 2012 do Superior Tribunal de Justiça já enquadrou a transmissão dolosa como lesão corporal gravíssima, delito que pode resultar em até oito anos de reclusão.
Ainda assim, um projeto de lei que tramita na Câmara dos Deputados desde 2015, do deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS), quer tornar a prática crime hediondo, que prevê pena de dois a oito anos de cadeia.
Entretanto, entidades que apoiam pessoas com HIV e observatórios de políticas públicas para a doença criticam a iniciativa legislativa. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), por exemplo, afirma que o projeto é "desnecessário" e um "retrocesso".

Deputado Pompeo de MattosDireito de imagemANTONIO AUGUSTO/CÂMARA DOS DEPUTADOS
Image captionProjeto do deputado Pompeo de Mattos quer enquadrar transmissão intencional do HIV como crime hediondo, mas entidades criticam iniciativa como 'retrocesso' em políticas para a doença

O Unaids diz que já há tipificação penal para esses casos e que não há comprovação de que a criminalização da prática traga benefícios à saúde pública. Afirma ainda que há risco de indução a erros graves do Judiciário e de criminalização deliberada de pessoas que vivem com o vírus, entre outros pontos.
"Uma vez sob a ameaça de ser considerada criminosa, a pessoa tende a fugir dos serviços de saúde, evitando o teste para o HIV, tornando-se potencialmente mais propensa a transmitir o vírus de forma involuntária", afirma o programa. Para a entidade, os casos de propagação deliberada são isolados, em razão dos tratamentos com antirretrovirais, que reduzem em 96% as chances de um HIV positivo transmitir o vírus.

Preconceito e incertezas

Vítimas de prováveis transmissões intencionais relatam preconceito no momento das denúncias.
"Fiz a denúncia em uma delegacia, de um homem que transou comigo contra a minha vontade. Começaram a investigar, mas no fim disseram que não existe violência sexual contra homem e não havia como provar que me infectaram intencionalmente. Essa é uma das coisas que mais me abalam, porque nem a polícia quis me ajudar", diz o universitário Luiz*, de 22 anos, do Rio de Janeiro.
Ele diz ter conhecido um homem de 40 anos, que dizia ser diretor de escola, por meio de um aplicativo de relacionamentos, em fevereiro deste ano. Eles conversaram por dois dias e marcaram um encontro em um motel.
"Ele pediu para fazermos sexo sem camisinha e falou que não tinha nenhuma doença. Mas eu não queria. Então ele usou a força contra mim, para me impossibilitar de sair, e transou comigo sem preservativo", conta.
O universitário diz ter bloqueado o homem em todos os meios de comunicação após o ato sexual. "Não sabia o que fazer, porque não ia procurar a minha família nem ninguém. Preferi guardar para mim e torcer para que não tivesse contraído o vírus. Optei por não falar mais com ele."
Ele diz ter sido sua primeira relação sem preservativo. E que um mês após o encontro passou a ficar doente com frequência.
"Tive bastante febre, tomei remédio e não melhorava. Recuperei-me, mas sentia muita dor de cabeça. Em março começaram a aparecer manchas em mim e fui fazer exame de sangue."

LuizDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image captionCaso de Luiz (nome fictício) teve investigação curta; ele diz ter ouvido da polícia que homem não sofre abuso e que havia feito feito sexo por vontade própria

Dois dias depois, ele recebeu o resultado e descobriu que era HIV positivo. "Minha mãe foi a primeira a saber e me contou. Foi horrível, para mim o mundo tinha acabado. Não sabia o que fazer."
No dia seguinte, o universitário teve a primeira consulta médica e começou o tratamento contra o vírus. Depois foi a uma delegacia prestar queixa contra o suposto abusador.
"Decidi denunciá-lo, mas não se aprofundaram no caso. Ele foi procurado pela polícia, disse que não sabia que tinha HIV, mas teve que fazer o teste e deu positivo."
Para Luiz, restou a incerteza sobre a intencionalidade na transmissão. "É difícil descobrir se foi intencional ou não. Não posso afirmar que ele sabia, mas acredito que sim. Independentemente disso, o que ele fez foi errado, porque fez sexo comigo sem camisinha, mesmo sem meu consentimento."
A Polícia Civil do Rio não respondeu aos contatos da reportagem.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em nota, negou que haja descaso das polícias nessas situações. Afirmou que orienta vítimas de possíveis transmissões propositais a registrarem a ocorrência, e que há análise individualizada dos casos para "tipificação de qual crime o fato se enquadra". Informou ainda que não há levantamento estatístico dessa modalidade criminal.
Acusações
O publicitário Lucas Raniel, de 25 anos, que vive em Ribeirão Preto (SP), experimentou consequências de acusações sobre transmissão intencional de HIV.
Ele convive com o vírus há três anos e chegou a ser acusado de propagar o vírus deliberadamente. "No ano retrasado, criaram um grupo de WhatsApp com uma foto minha e falaram que eu estava passando Aids. Esse boato se espalhou e eu descobri. Fiquei em choque."
Na época, Raniel estava em tratamento contra o vírus e possuía carga viral indetectável. "Eu ia aos bares e sentia que ficavam me olhando. Muita gente se afastou. Fui me fechando. Era da faculdade ao trabalho e do trabalho para casa."

Lucas RanielDireito de imagemMARIA BIAVA
Image captionPublicitário Lucas Raniel diz ter sido alvo de falsos boatos de transmissão intencional do HIV

O publicitário revela que chegou ao extremo de se pendurar na janela de seu quarto por uma noite inteira.
"Pensava em pular. É triste falar isso, mas não gosto de deixar de citar, porque pessoas pensam nisso. E não pode ser assim. Você não pode se suicidar por conta de uma doença. Tem que vencê-la e não se entregar. Mas a maldade e o preconceito fazem com que você se feche e se entregue a uma depressão que nem percebe."
Raniel descobriu ser HIV positivo em dezembro de 2013. Diz acreditar ter sido infectado três meses antes, após encontro com um rapaz que conhecera via aplicativo.
"Tinha chegado em casa bêbado, após uma festa, e conheci o rapaz. Conversamos um pouco e nos encontramos na mesma noite. Fui para a casa dele, continuamos bebendo e acabei perdendo os sentidos. No meio da madrugada, ele me levou ao quarto, mas tenho uma lembrança muito vaga desse dia."
Na manhã seguinte, ele relata que se recordou da relação sexual. "Lembro de pouca coisa dessa noite, mas sabia que ele tinha feito sem camisinha. Eu o questionei sobre isso e ele falou que eu poderia ficar tranquilo, porque ele era 'de boa' e não tinha nada."
Antes de descobrir o vírus, ele diz que chegou a procurar o homem novamente. "Comecei a ficar doente e cheguei a procurá-lo no WhatsApp, falei o que estava acontecendo e disse que não tinha transado sem camisinha com mais ninguém. Ele ficou muito nervoso e me bloqueou de tudo."
Raniel é outro que acredita ter sido vítima de transmissão intencional do HIV, porém optou por não denunciar o caso. "Não há como provar que foi proposital. Além disso, acredito que um erro meu ocasionou isso, porque eu estava bebendo muito, por isso não denunciei. Não tenho mágoa. Espero que ele esteja bem e não faça mais isso. Torço para que esteja se cuidando e vivendo normalmente, como é possível."

Homem com camisinha na mãoDireito de imagemTHINKSTOCK
Image captionAplicativos de paquera facilitaram relações sexuais, o que pode ajudar a explicar aumento da epidemia entre homens

Tendência

Os três jovens citados nesta reportagem integram faixa da população que tem apresentado aumento nos índices de infecção.
Os dados do Ministério da Saúde mostram que a taxa de homens de 15 a 19 anos com Aids mais que duplicou de 2003 a 2015 (de 2,9 casos por 100 mil habitantes para 6,9). O mesmo ocorreu na faixa de 20 a 24 anos (de 18,1 casos por 100 mil habitantes para 33,1).
Especialistas sugerem que as razões estão ligadas a fatores como surgimento de aplicativos que facilitam encontrar parceiros sexuais e diminuição de programas de educação nas escolas.
A orientação do Ministério da Saúde é usar preservativo nas relações sexuais sempre. Em caso de suspeita de exposição ao HIV, o Sistema Único de Saúde oferece a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), que é um tratamento com antirretroviral por 28 dias, cujo objetivo é evitar a infecção pelo vírus. O procedimento deve ser iniciado em, no máximo, até 72 horas após o contato com o HIV.
Estima-se que no Brasil existam 112 mil pessoas vivendo com o vírus e que ainda não sabem. Outras 260 mil já saberiam, mas ainda não fazem uso de remédios.
Das 827 mil pessoas vivendo com o HIV no Brasil, 715 mil já foram diagnosticadas - 512 mil deram início ao tratamento e 92% delas possuem carga viral indetectável.
Adele Benzaken, diretora do departamento de DST, HIV/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, diz que o preconceito faz com que pessoas não busquem tratamento. "Esse estigma sobre o HIV positivo prejudica o tratamento, principalmente em regiões onde não há muito conhecimento sobre o assunto."

remédios para HIVDireito de imagemSCIENCE PHOTO LIBRARY
Image captionA terapia antirretroviral é uma combinação de três remédios ou mais para impedir a multiplicação do vírus HIV no corpo humano.

Ativismo

Lucas Patrick Machado diz que o preconceito é recorrente em sua vida. Atualmente desempregado, ele acredita que o vírus seja um dos fatores que dificultam a busca por trabalho, mesmo estando em tratamento e com carga viral indetectável.
"Nunca escondo o HIV quando vou procurar um emprego. As pessoas, infelizmente, julgam muito os soropositivos. Elas nos tacham como promíscuos, como lixo. Mas ninguém sabe qual foi a trajetória da vida daquela pessoa."
Instigado pelas dificuldades enfrentadas pelas pessoas que convivem com o HIV, Machado se tornou ativista da causa e representa a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids em Mato Grosso.
"Antes somente a minha família sabia. Mas decidi revelar para todo mundo após uma viagem ao Recife em que encontrei outros jovens que vivem com o HIV. Em 2015 fiz uma publicação no Facebook para que todo mundo que conheço soubesse. Depois, virei ativista, para ajudar outras pessoas."
Por meio do trabalho nessa rede, ele descobriu o interesse pela Psicologia. Em junho, foi aprovado no ProUni e conquistou uma bolsa para o curso em uma universidade de Cuiabá. As aulas começarão em agosto.
Além disso, ele possui uma relação sorodiscordante (uma pessoa com HIV e uma sem HIV) há mais de um ano. "Desde que começamos a namorar ele sabia que eu era HIV positivo. Ele sempre me aceitou. Eu me mudei pra Cuiabá por causa dele e hoje moramos juntos", diz.
Luiz contou sobre o HIV somente a parentes e amigos próximos. Ele vem tentando se adaptar à nova realidade, mas ainda encontra dificuldades.
"Sinceramente, não sei o que esperar da minha vida. Perdi a confiança da minha família e em mim mesmo. Isso acabou dificultando tudo. Até hoje, quero que o cara que fez isso comigo pague. Eu continuei levando minha vida adiante, mas é complicado, porque não esqueço essa injustiça terrível que aconteceu", diz .
Lucas Raniel decidiu revelar ser HIV positivo por meio de uma publicação no Facebook. "Fui a uma palestra sobre o HIV e senti vontade de assumir. As pessoas começaram a me parabenizar, disseram que era corajoso, e as coisas foram fluindo aos poucos."
Apesar de ter recebido o apoio de diversos conhecidos, ele diz ainda sofrer preconceito. "Tem muita gente ruim, ainda existem situações em que sou alvo de discriminação, mas não me deixo abater por isso."

Título Original: Os jovens que vivem com a desconfiança de terem sido infectados de propósito com HIV

* Nomes fictícios.
Professor Edgar Bom Jardim - PE