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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Crescer em São José do Egito: a trilha sonora poética de viver no Sertão pernambucano

Em São José do Egito, cidade conhecida como Berço Imortal da Poesia, tudo vira rima. E a vida do povo, desde muito cedo, ganha beleza e métrica - há um poeta em cada esquina. Nossa história é um bom exemplo, são matérias-primas, cultura e educação. Ela começa na Escola Técnica Estadual Professora Célia Siqueira, onde jovens querem fazer poesia e canção. Eles planejam ganhar a vida como engenheiros, médicos, advogados - mas a paixão pelos versos é a maior das certezas à qual têm chegado. Criaram, em 2016, o grupo Poesia Cantada: cantam e declamam músicas brasileiras de outras décadas, dizendo terem nascido na época errada.
“Nosso repertório é feito de clássicos da MPB, hits da Jovem Guarda, boleros, coisas mais antigas. Entre um trecho e outro das músicas, os meninos declamam poesia”, explica Larissa Gabrielly de Souza, 17 anos, a vocalista da banda. Ela canta desde os sete anos e começou bem cedo a fazer planos: quer ser médica e cantora – no destino, ela é quem manda. É o rosto do grupo de sete jovens do Sertão pernambucano, criado para um show de talentos da escola. Há pouco mais de dois anos, a estreia deu tão certo, que decidiram viajar Sertão afora. Articularam pequenos shows e caíram na estrada, levando os violões na sacola. Segredo (Herivelto Martins/Marino Pinto), Pense em mim (Douglas Maio/José Ribeiro/Mário Soares) e Linda flor (Henrique Vogeler/Luis Peixoto/Marques Porto) estão sempre entre as mais pedidas, seja qual for a cidade. A única composição autoral do grupo também ganha aplausos - e se chama Saudade.
Gestor Niedson Amaral é um grande incentivador do grupo. Foto: Rafael Martins/DP
Gestor Niedson Amaral é um grande incentivador do grupo. Foto: Rafael Martins/DP
Quem acompanha tudo de perto, desde o primeiro ato, é um atento gestor. Niedson Amaral, de 40 anos, chegou há dois no centro de ensino e se tornou grande incentivador. “O projeto começou despretensioso, espontâneo, mas tem mudado a perspectiva do grupo quanto ao futuro”, avalia o educador. Ele inscreve o grupo em eventos, dá carona para os shows, aconselha os meninos a continuarem a compor. “Eles se tornam seres humanos mais completos, porque a arte é fundamental para desenvolver a sensibilidade, o exercício de ver o outro”, diz o professor. Na Célia Siqueira, como em todas as escolas estaduais do município, poesia é disciplina da grade curricular. Os professores ensinam as métricas, citam poetas locais, fazem de tudo para estimular. Somente na ETE, são mais de 450 alunos pondo a tal veia poética para trabalhar.
Parentes e vizinhos também entram na roda. Aqui, todo mundo se chama de “poeta”, dizem que é costume secular que não sai de moda. Veja Gabriel Guilherme de Souza, 17, tocador de cajón da banda e filho de artista popular. O pai, Chiquinho do Egito, figura conhecida no município, foi quem lhe ensinou a rimar. “A poesia é uma tradição, isso une as pessoas aqui. Quando entrei no Poesia Cantada, fizemos vaquinha para comprar meu cajón”, lembra o rapaz. “Fomos para a beira da estrada cobrar 'pedágio', todo mundo ajudou”, completa, como quem diz e também faz. Ele quer ser psicólogo, mas não pensa em deixar de tocar. A saga do cajón, ele assegura, serviu para lhe ensinar: a poesia é força poderosa nessas bandas que não se pode ignorar.
Jovens servem como referência na escola para manter a poesia viva. Foto: Rafael Martins/DP
Jovens servem como referência na escola para manter a poesia viva. Foto: Rafael Martins/DP
Completam a tal banda Péryclys Pereira da Silva, 19, e Rodrigo Veras da Silva, 17, de quem não é irmão. Também Edvaldo da Silva Pereira Filho, 16, Mikael da Silva de Melo, 17, e Everson Heleno Aguiar, 17, são dos poetas a roubar a cena no Sertão – na tal banda, juntam-se aos vocais de Larissa e ao cajón de Guilherme, que já ganharam apresentação. Péryclys e Rodrigo, os trovadores do grupo, são quem improvisam os versos conforme o tema da canção. “Tentamos incentivar os mais novos a continuarem, criarem coisas parecidas que mantenham a poesia viva”, diz Péryclys, junto aos planos de gravar um disco até o próximo São João. 
Concluída a escola técnica, os meninos querem fazer faculdade, vão cada um pra uma cidade, sabem do risco de se separar. Larissa quer cursar medicina, Rodrigo, fisioterapia e Péryclys quer advogar. O sonho era viver de rima, mas se ser adulto e sonhar nem sempre combina, eles pretendem conciliar. “A música e a poesia que a gente faz nem sempre têm espaço no mercado, sobretudo fora de São José do Egito”, lamenta a menina que só quer cantar. “Hoje toca muito sertanejo, é muito difícil pra quem gosta de outras coisas”, pondera Larissa na escola, onde todo fim de semana vai ensaiar. Ela canta, sonha e estuda, lhe disseram que a poesia tudo muda e pode a sua sorte virar. Essa reportagem é para Larissa - e quem faz poesia com ela - nunca desanimar: a vida dá muitas voltas, é preciso colocar os sonhos nas costas e por eles querer lutar. Mas no fim tudo se ajeita, o percurso é o que mais se aproveita, só não vale deixar de rimar.
Diário de Pernambuco.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Que país é este ? Veja a situação do professor no anúncio de Luciano Huck

Que País é Esse?


Compositor: Renato Russo.

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

No Amazonas, no Araguaia
Na Baixada Fluminense
No Mato Grosso e nas Gerais
E no Nordeste tudo em paz

Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Terceiro Mundo se for piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Professor Edgar Bom Jardim - PE

domingo, 13 de agosto de 2017

A solidão de uma aluna negra que chegou à universidade


Ilustração: Lucas Magalhães.

Meu sonho era ir de uma escola municipal para a melhor universidade do país, mas não percebia que apenas 7% de seus estudantes eram negros como eu.


Ser um dos poucos ou o único aluno negro em uma sala de aula é a realidade de muitas crianças e jovens do Brasil. Foi e é a minha, mas passei toda a vida escolar sem perceber. Eu percebia que não gostava muito de Matemática, que sabia escrever bem, que tirava notas excelentes e que meu maior objetivo era sair de uma escola municipal para a melhor universidade pública do país. O que eu não percebia era a minha cor, a cor e a conta bancária dos outros concorrentes no vestibular, os números que mostravam que negros eram apenas 7% dos estudantes da minha universidade dos sonhos. Eu não percebia nem mesmo o porquê daquela expectativa gigante que alguns professores tinham sobre mim.
É difícil admitir, mas foi fácil me sentir melhor do que os outros porque era inteligente, fazia aulas de inglês, francês, flauta, piano, teatro. O complicado foi chegar em uma sala de aula universitária e descobrir que meus colegas também sabiam tudo isso. Mas havia uma diferença muito grande entre nós: sentada num banco com tantos brancos, eu percebi que era negra. A pergunta que veio junto foi “cadê os outros? ”. Ao pensar na minha família eu vejo onde estão os outros negros. Quando dou bom dia pros funcionários da minha universidade eu vejo onde estão os outros negros.
Pode parecer bem simples, mas não é. Ao frequentar espaços educativos e culturais, esse fato é atirado novamente em mim. Não o fato de eu ser negra, mas todo o significado e carga que isso traz. Todas as vezes que me vejo sozinha em lugares ainda muito elitistas a minha pergunta é respondida.
Eu, como algumas outras alunas e alguns outros alunos negros, estamos alcançando os nossos sonhos e isso é ótimo. Mas viver isso sozinha causa mais tristeza do que orgulho. Estar inserida em um ambiente em que a maioria dos negros só entra para servir dá muita raiva também. Eu entrei, mas, se a maioria dos meus não, ainda me sinto um pouco do lado de fora.
Compartilho um texto que escrevi em meu perfil pessoal no Facebook ao me ver em uma dessas situações:
As pessoas negras de dentro e as de fora
Vim assistir a uma peça num Sesc no centro de São Paulo. Plateia lotada. Fiquei feliz por conseguir um dos últimos ingressos. Comprei com meu cartão de crédito. Visto meu sapato da moda e minha calça jeans que também comprei com meu cartão. E um cachecol muito quentinho que minha mãe fez.
Enquanto espero a peça começar, meus olhos contam sem que eu queira: são umas 8 pessoas negras aqui. Uns 5 são funcionários. Na fila do café, uma moça que viu minha peça me reconhece. Obrigada. Mais uma funcionária negra.
Esqueci de contar que antes de me juntar a plateia branca que assistirá ao espetáculo, ser servida por funcionárias negras e sentar à mesa limpa por funcionárias também negras, precisei atravessar parte da antiga e ainda atual Cracolândia. Vim bem rapidinho, celular escondido no peito, bolsa grudada no corpo. Vim sentindo medo daquelas pessoas na rua. Pessoas em boa parte negras.
Cheguei ao Sesc e fui recepcionada por um gentil porteiro negro. Foi aí que meus olhos começaram a contar. Talvez o ponto já tenha ficado claro, mas o ponto é que minhas roupas, meu sapato e meu cachecol se parecem muito com o das pessoas daqui de dentro. As pessoas brancas. Fora a moça que me reconheceu da outra peça, os olhos brancos não me contam. Afinal, eu me visto bem, não uso drogas e frequento teatro. Tomara que eles não descubram que sem roupa eu sou tão negra quanto as pessoas de quem eles tem medo na rua. Eu tô aqui com muita roupa, mas as pessoas lá fora estão quase sem nenhuma. E como meus amigos brancos estão deixando bem claro nas redes sociais: está frio para dedéu.
O texto foi pra um caminho que eu não sei mais qual é, mas o ponto é que eu fico com um pouco de vergonha de me vestir de branca e um pouco de me vestir de negra também. Essa última frase também é confusa na minha cabeça, então não me perguntem.
O ponto é que eu negra só queria um dia dividir a plateia de um teatro com muitas outras pessoas negras. E que muitas pessoas negras também dissessem que viram a minha peça. 

Ai, que bom, contei mais três pessoas negras.
Por Nairim Bernardo. Nova Escola
Publicado em 13/08/2017.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Filmes para saber mais sobre Arte


Crédito: Patrick Cassimiro

O cinema permite nos aproximar de histórias, explorar conceitos, conhecer e ter contato com outras realidades. Apesar de ser um recurso interessante para trabalhar em sala de aula, também pode ser uma ferramenta de formação do próprio professor. Por isso, listamos 10 títulos disponíveis no catálogo da Netflix que podem auxiliar nestes dois casos, além de indicar conteúdos de NOVA ESCOLA complementares aos temas.Selecionamos filmes para trabalhar arte urbana, consumo e cidade; para discutir o declínio do cinema mudo; literatura e feminismo e o impacto da música na vida escolar e pessoal dos alunos. Além disso, indicamos três produções biográficos sobre artistas plásticos que deixaram suas marcas estilísticas na arte. Uma boa dica para aproveitar as férias - ou o fim de semana. Confira:

ARTE URBANA1. Cidade CinzaEste documentário brasileiro tem tudo a ver com as atuais discussões sobre Arte e cidade. Dirigido por  Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, “Cidade Cinza” tem como cenário a capital paulistana e traz depoimentos de grafiteiros que ilustram prédios e muros de São Paulo, como Os Gêmeos, Nina e Nunca. Com a Lei Cidade Limpa, que propõe diminuir a poluição visual da cidade, muitos grafites começaram a desaparecer encobertos por tinta cinza pela prefeitura. Também é mostrado a relação dessa forma gráfica com o hip-hop. Apesar de contemplar apenas o grafite, o documentário pode ser ponto de partida para discussões sobre cultura urbana, como as pichações se encaixam nesse contexto e como os movimentos e campanhas de “limpeza” da cidade influenciam o urbano. Para ajudar na reflexão, indicamos dois textos disponíveis em NOVA ESCOLA: Pixação é vandalismo? e O hip-hop das ruas chega às aulas.


2. Saving Banksy
Ainda falando sobre arte urbana, esse documentário aborda o tema sobre um outro viés: aqui os artistas que depõem no filme também têm suas obras apagadas e já foram presos quase 100 vezes por pintarem nas ruas. No entanto, essas artes - depreciadas como vandalismo e punidas por isso - têm ganhado outros espaços: leilões de luxo. Quem corre o risco de fazer seu grafite na cidade não recebe nada dessas vendas, mas têm suas obras comercializadas a um preço alto por terceiros. “Saving Banksy” (“Salvando Banksy” em tradução livre), referência à um dos maiores artistas de rua do mundo - e dono das obras mais valiosas -, abre a discussão para a apropriação cultural e comercialização não autorizada a partir do caso de Banksy. Sugerimos quatro textos sobre como o grafite pode se relacionar com a escola: “Traços de cidadania”“Do muro para a classe e de volta para as ruas”“Grafite transformador” e “O grafite das ruas agora também está na escola”.

Colecionadores de arte passam meses negociando com proprietárias de imóveis que têm grafites do artista britânico Banksy para tentar fazer as remoções da superfície com a obra sem apagar o desenho. Crédito: Reprodução


PERSONALIDADES
3. Frida
Um dos maiores nomes da arte mexicana, Frida Khalo (1907-1954) passou por uma série de doenças, acidentes, lesões e operações que a levaram a dar início à carreira como pintora. Considerada a primeira artista surrealista da América Latina, adotou em suas obras temas do folclore e da arte popular do México, além de explorar autorretratos. O filme é biográfico e vale para conhecer melhor a artista e a partir de seu trabalho discutir a técnica de autorretrato na pintura com a turma. Confira um plano de aula sobre o tema e conheça mais sobre as características de seu trabalho aqui.

Crédito: Reprodução 

4. Grandes OlhosDirigido por Tim Burton, o filme conta a história da pintora americana Margaret Keane. Ilustrando principalmente mulheres, crianças e animais, sua principal marca são os olhos grandes (e, diga-se de passagem, profundos e tristes) que dá aos personagens que pinta. Pelo difícil reconhecimento de trabalhos com autoria feminina nos anos 50 e pelo machismo que permeia sua vida, Margaret aceita que suas obras sejam assinadas com o nome do marido para conseguir vendê-las. Diante da popularidade dos quadros, ele passa a afirmar que as obras são de sua autoria. As mentiras começam a desmoronar e o caso é levado ao tribunal. Para verificar a veracidade do autor, ambos são colocados a pintar na sala em que acontecia a audiência. Além da discussão sobre feminismo, é possível debater com "Grandes Olhos" como identificar e utilizar as marcas estilísticas de um autor, seja nas artes plásticas, literatura ou outra expressão artística.
5. Escada para o CéuGuo-Qiang não é um nome muito conhecido por aqui, mas seu trabalho é, literalmente, um espetáculo de cores e formas que vale a pena conhecer. O artista chinês desenvolve sua arte com pólvora e fogos de artifício (isso mesmo!). E se a matéria-prima explosiva é inusitada, a técnica não fica atrás: após colocar a pólvora sobre o papel e tela, ateia-se fogo. O resultado é surpreendente. Guo-Qiang acredita que cabe aos artistas transformar o não artístico em obra de arte, como é o caso do uso que faz da pólvora. Além disso, seus trabalhos com pirotecnia são mais do que dignos de serem revisitados: ele foi o responsável pelos efeitos pirotécnicos nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. A partir do trabalho do artista contemporâneo é possível discutir o que define algo como sendo uma obra de arte (material, técnica ou valor, por exemplo). Veja aqui um plano de aula sobre o tema.
MÚSICA6. AmadeusO filme retrata um dos mais conhecidos compositores clássicos, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), pelo viés de um outro compositor de ópera: Antonio Salieri. Salieri narra de um manicômio sua admiração por Mozart que se transforma em inveja. A trama mostra a elite cultural século XVIII em Viena - a “cidade dos músicos” -, na Áustria. Outros nomes como Ludwig van Beethoven também fizeram sua história na cidade apesar de não serem citados no filme. Saiba mais sobre como trabalhar música clássica com os estudantes em “É tudo música, do clássico ao erudito”“Música popular e música erudita” e “Keith Swanwick fala sobre o ensino de música nas escolas”.
7. Crescendo, the Power of MusicTrabalhando com a ideia de que a música pode ser um instrumento de promoção social, este documentário americano acompanha duas crianças da Filadélfia e uma em Nova York que têm suas vidas transformadas após integrarem um programa de Educação musical gratuito intitulado “El Sistema”. Com origem na Venezuela, o programa também foi implementado nos Estados Unidos. Veja como recursos culturais podem agregar para a formação dos estudantes.

O filme mostra o poder social da música para as crianças e jovens. Crédito: Reprodução

8. A voz do coraçãoAinda usando o poder da música para transformar, “A voz do coração” é um filme que tem como cenário um internato. Entre confusões e rebeldias de alunos e de uma gestão que não colabora, um professor novato decide criar um coral no colégio. O movimento cria uma relação de confiança entre ele e os estudantes e, à medida que os talentos são revelados, o comportamento das crianças muda. Leia mais sobre como a cultura pode influenciar a Educação em “Violeta Hemsy de Gainza fala sobre Educação musical” e “Música para aprender e se divertir”.

Crédito: reprodução

CINEMA9. O ArtistaO longa retrata o declínio do cinema mudo em Hollywood no ano de 1927. O personagem George Valentin, astro do mutismo, sofre com a mudança da indústria cinematográfica enquanto seu par romântico faz sucesso no cinema falado. O tema rende discussão na aula de Língua Portuguesa trabalhando discursos. Confira o plano de aula “Cinema mudo: narrativas sem palavras, expressão de sentimentos” e a reportagem “Filmes para ensinar os tipos de discurso”.
LITERATURA10. Orgulho e PreconceitoO clássico da escritora britânica Jane Austen (1775-1817) foi publicado pela primeira vez em 1813 e adaptado para as telonas pelo diretor Joe Wright. Em um contexto bucólico, o filme retrata os anseios e aventuras da protagonista Elizabeth Bennet, cuja mãe têm entre seus maiores desejos garantir um bom casamento para suas cinco filhas. No entanto, o espírito aventureiro de Elizabeth não aceita qualquer proposta de casamento. Por meio de suas personagens criados há mais de 200 anos, Austen transmite sutilmente alguns dos principais ideais feministas, como a noção de igualdade e a conscientização sobre a ideia de inferioridade sobre as mulheres na sociedade. Confira como trabalhar o tema com os textos “Mostre para a turma que as meninas podem ser o que elas quiserem” e “8 jeitos de promover o empoderamento feminino desde a alfabetização”.

Tem outras indicações de títulos imperdíveis para enriquecer as discussões de Arte? Não deixe de compartilhar suas sugestões nos comentários!

*Os filmes e documentários aqui indicados estão disponíveis no catálogo de julho de 2017 da Netflix. Devido à rotatividade de títulos da plataforma, o catálogo pode sofrer alterações.
Por Laís Semis. Nova Escola
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lima Barreto é bom remédio para nossa enxaqueca republicana e democrática, diz Lilia Schwarcz



Lima BarretoDireito de imagemREPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
Image captionLima Barreto em foto de sua ficha em hospital psiquiátrico, em 1914

Se estivesse vivo, o escritor Lima Barreto (1881-1922) talvez fizesse piada com o 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil ou destilando sarcasmo ao comentar a crise política nacional. Sua picardia, a qualidade de sua prosa, suas críticas aos estrangeirismos e à qualidade do funcionalismo público e sua literatura de temática racial não poderiam estar mais atuais, defende a historiadora Lilia Moritz Schwarcz.
Autora de uma recém-lançada biografia do autor, Lima Barreto - Triste Visionário, publicada pela Companhia das Letras, ela navega pela história do personagem para desaguar em um tratado sobre uma "certa história do Brasil".
Vítima de um grave alcoolismo, que o levou a duas internações manicomiais, Lima Barreto teve sua obra silenciada por muito tempo, já que conseguiu desagradar a toda elite cultural e econômica nacional no início do século passado.
Revisitado política e literariamente, ele é o tema da Flip (Feira Literária de Paraty) deste ano, que acontece entre esta quarta-feira e o domingo. "Essa é a Flip da crise. Tinha que ser o Lima Barreto para ser uma edição mais marginal, que vai ser menor, não vai ter tenda, tem que ser na Igreja, enfim. Parece que o Lima desestabiliza até na Flip, quando chega a vez dele é diferente", disse Schwarcz à BBC Brasil.
Veja a seguir os principais trechos da conversa com a historiadora.


A historiadora Lilia SchwarczDireito de imagemRENATO PARADA/DIVULGAÇÃO
Image captionSchwarcz vê conexões entre seu livro anterior, 'Brasil: Uma Biografia', e obra sobre Lima Barreto

BBC Brasil - A biografia do Lima Barreto sucede seu livro Brasil: Uma Biografia. As duas obras têm algo em comum?
Lilia Schwarcz - Sim. O Lima Barreto teve uma biografia fundamental, do Francisco de Assis Barbosa, de 1951. Mas eu queria outro Lima - que era vítima sim, mas que tinha protagonismo. E eu queria inquerir o tema racial e a questão de gênero - essas são questões da nossa geração, e não podia cobrar isso do Francisco de Assis. Minha geração é que tem convivido com as questões dos direitos civis, das diferenças.
Eu lia Lima Barreto havia muito tempo, já identificava isso e é uma história do Brasil, é uma certa história do Brasil. Quando eu fiz o Brasil: Uma Biografia, muito influenciada pela minha pesquisa, a gente dizia que um dos pilares da história do Brasil é a questão racial, que ainda é uma grande invisibilidade hoje no Brasil.
Para você ter uma ideia, quando eu lancei Brasil: Uma Biografia, não poucos jornalistas me falavam "poxa vida, nunca tinha pensado na história do Brasil sobre esse ângulo". E foi o último país a abolir a escravidão, recebemos 45% dos africanos que foram forçados a sair do seu território, então é um espanto. Eu quero contar a história do Brasil a partir da janela do Lima Barreto.


Anúncio no jornal Direito de imagemACERVO DA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL
Image captionPágina do jornal 'A Noite', de 1915, anunciando início de publicação de textos de Lima Barreto

BBC Brasil - Além de ser atual pela questão do gênero, de raça, há na obra dele uma decepção com os políticos, presente atualmente também. Como aborda isso?
Schwarcz - Eu começo o livro com uma citação que diz que "O Brasil é uma grande comilança - comem os políticos, os jornalistas, comem os juristas". Você lê aquilo e a sensação que te dá é um dèjá vu. Ela cobre a corrupção da República, cobre o mau uso da res pública a partir de interesses privados. E faz uma crítica feroz aos políticos, chega a dizer "à República do Brasil falta dignidade".
Então ele cobra um Brasil mais inclusivo, mais justo, mais igualitário - problemas que estamos vivendo até hoje. São temas que ele viveu no pós-abolição e que vivemos ainda nessa mesma República falhada que padece com os problemas de corrupção, mas não só disso: de racismo, homofobia. São questões que estão na pauta de Lima Barreto, e que estão na nossa agenda.
BBC Brasil - E ele faz isso com um humor ácido...
Schwarcz - A gente tem esse jeito tão brasileiro de rir da desgraça. Me lembro do 7 x 1 contra a Alemanha, que assim que o jogo terminou comecei a receber mensagens tirando sarro disso, e o Lima tem um pouco disso - muito crítico, muito mordaz, mas ao mesmo tempo muito bem humorado.
As histórias dele sobre o funcionalismo público são de matar de dar risada - ele diz que "você mede a qualidade de um bom funcionário público pela quantidade de vezes que ele abre as gavetas, ou que ele aponta o lápis". E ele tá lá, é funcionário público.
É uma blague que tem a ver com esse modernismo carioca, que durante muito tempo ficou fora da agenda, fora do compasso dos modernismos, e que era um modernismo boêmio e bem humorado.
Era crítico de idealizações do país, era uma literatura crítica, de contestação. E ele faz uma crítica aos estrangeirismos. E teve uma recepção desastrosa na época, como você pode imaginar.


Fotos que constam da 'Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin'Direito de imagemREPRODUÇÃO DE LÚCIA MINDLIN
Image captionJoão Henriques e Amália Augusta, pais de Lima Barreto, em imagens que estão na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindli

BBC Brasil - Desastrosa porque era crítica às elites ou porque já era racialmente engajada?
Schwarcz - Quando eu digo que o Lima Barreto merece mais do que (ser) a vítima, é porque ele tinha um projeto literário, de inserção. E fazer uma literatura negra, afrodescendente, era grave nessa época. Porque era um tema entre muitas aspas, as pessoas achavam desagradável, era melhor não falar disso.
E a gente sabe que naquela época, quem fazia sucesso, virava branco. Tanto nas fotos como na cor. Temos cor social.
No próprio manicômio, ele foi internado como branco e depois, como pardo. Essa é a régua da cor no Brasil. Eu tentei provar no livro que ele trazia esse tema, ele descreve a cor dos personagens de uma forma minuciosa, ele próprio se chamava de azeitona escura.
Para você ter um autor que diz que negro é a cor mais cortante no Brasil - não tem ingenuidade nisso. Ninguém queria falar desse tema.
BBC Brasil - Lima ajudou a impulsionar uma literatura afrodescendente?
Schwarcz - Ele morreu em 1922, aos 41 anos e com a obra muito silenciada. Depois da Nigéria, o Brasil é o maior país de população negra e africana e somente agora começam a aparecer expoentes da literatura negra, afrodescendente.
E eu não chamo de literatura negra quem nasceu negro, não é uma questão de origem, é uma opção - no Lima Barreto é um projeto literário.


Página do jornal 'Cigarra', de 1919Direito de imagemREPRODUÇÃO/DIVULGAÇÃO
Image captionCaricatura de Lima Barreto em página do jornal 'A Cigarra', em 1919

E agora sim, para esse tipo de literatura, o Lima Barreto é sempre lembrado e vai continuar a ser lembrado. E ele nunca esteve tão atual.
BBC Brasil - E pode ser inspirador para esse momento de apatia?
Schwarcz - Lima Barreto é um bom autor para a gente pensar as nossas falácias da democracia e da República. Ele vivia acusando as nossas instituições - a gente anda dizendo que as nossas instituições estão fortes, eu não vejo como. É só um ritual vazio que anda forte, e não as instituições.
E ele falava mal do presidente, do deputado, ele é crítico dos discursos vazios. Ele é um bom remédio para nos curar da nossa enxaqueca republicana e democrática. É um autor que provoca, que não estabiliza.
Exatamente, depois das manifestações, dos panelaços, a gente entrou em um período de apatia. E o período pede de nós - como diria o poeta - vigilância. E não apatia. E o Lima Barreto era muito vigilante, e incômodo na sua vigilância. Ele é bom para nós neste momento.
Professor Edgar Bom Jardim - PE

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Por que ensinar habilidades socioemocionais


Crédito: Shutterstock

Um mundo em mutação exige que indivíduos e sociedades se adaptem continuamente e colaborem entre si para resolver problemas nunca antes vistos. Nas próximas décadas, surgirão empregos que ainda não existem e as tecnologias continuarão evoluindo. É nesse contexto que vários países analisam seus sistemas de ensino atuais e valorizam as habilidades não cognitivas no cotidiano escolar.
Para saber mais sobre essa discussão, NOVA ESCOLA entrevistou a pesquisadora Esther Carvalhaes, analista na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em Paris. Formada em Educação pela Universidade de São Paulo e doutora em políticas educacionais pela Universidade da Cidade de Nova York, ela se especializou na aplicação de métodos estatísticos para melhor compreender realidades educacionais. Hoje, recebe e analisa os dados de vários países e acompanha o projeto Educação 2030, como conta a seguir.
Por que as atenções internacionais estão voltadas para as habilidades socioemocionais?  
Apenas os conteúdos escolares não parecem mais bastar para as sociedades atuais. O aprendizado não irá mais se limitar ao período da Educação Básica, mas deverá continuar durante toda a vida do indivíduo (em inglês, life-long learning).  Na escola, os alunos aprendem a se relacionar, a lidar com diferentes opiniões e costumes, a trabalhar em equipe e até a estabelecer alvos mais elevados para si mesmos. Isso exige que eles desenvolvam uma série de habilidades não estritamente cognitivas, mas que têm mais a ver com sua capacidade de construir relações de confiança e de se autoconhecer, de mobilizar ou controlar suas emoções, seja para atingir objetivos escolares ou para criar um ambiente positivo ao seu redor.
Quais características um professor deve ter para desenvolver essas habilidades nos alunos?
É difícil imaginar que um professor ou professora possa ajudar seus alunos a desenvolver certas competências se não tiver disposição para servir de exemplo. Há várias vertentes de pesquisa educacional que mostram a importância de modelos sociais no aprendizado. Os educadores que já desenvolveram certas competências têm papel fundamental em ajudar outros a desenvolvê-las. Eles podem inspirar, demonstrar, explicar o porquê de suas ações e compartilhar estratégias. Este aprendizado não vem só dos docentes, mas de pais de alunos, de colegas de sala e de amigos fora da escola.

Esther Carvalhaes, da OCDE (Divulgação)

Como as evidências internacionais podem verificar o impacto das habilidades socioemocionais no aprendizado em longo prazo?
De certa maneira, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) já tem feito isso: é preciso continuar medindo através dos anos que relação existe entre certas habilidades e o aprendizado nas novas turmas. Algumas competências estão associadas a melhores níveis de desempenho em vários países. Se elas forem testadas em diversos grupos de alunos e as pesquisas mostrarem os mesmos resultados, aumenta a credibilidade destas evidências. Por exemplo, é certo que a motivação para aprender e a sensação de pertencimento à comunidade escolar influenciam diretamente na aprendizagem. Observar diferenças entre países também é importante, porque elas permitem elaborar e estudar novas hipóteses para explicar por que certas competências se manifestam de outras formas dependendo do contexto.
Qual o grande desafio dos pesquisadores?
Quando se trata de habilidades socioemocionais, ainda temos muito a aprender. Um dos principais obstáculos neste sentido refere-se à dificuldade de se aferir certos atributos individuais de forma rigorosa e objetiva. Como medir, por exemplo, a criatividade dos alunos? E sua capacidade de colaborar com os colegas? E seus níveis de persistência para alcançar um objetivo? Ou ainda sua resiliência, ou seja, sua capacidade de suportar e superar desafios? Outra dificuldade está no plano metodológico. No mundo ideal dos pesquisadores, teríamos que medir as habilidades de interesse com instrumentos confiáveis desde cedo na vida das crianças e acompanhar seu desenvolvimento individual até a vida adulta. Mas isso é muito difícil de realizar em larga escala.
Quais seriam as alternativas?
Um dos caminhos é fazer uma reflexão séria sobre que habilidades e competências são consideradas relevantes para a vida dos alunos e desenvolver instrumentos mais sofisticados que ajudem na aferição destas habilidades. Na OCDE, mais de 20 países cooperam em um projeto chamado Educação 2030. Muitos deles estão se perguntando se os sistemas de ensino atuais são capazes para preparar suas crianças e jovens para um futuro próximo.
Como será esse projeto na prática?

Ele começou em maio de 2017 com um encontro de trabalho entre especialistas, que ouviram estudantes e outros interessados sobre o assunto. A partir dele, cada país irá definir quais competências (saberes, habilidades, atitudes e valores) serão cruciais para a inserção dos estudantes na vida adulta em 2030 e, então, examinar se elas estão refletidas nos currículos atuais das escolas. Será um exercício de troca de ideias e aprendizado com as experiências de outros, mas também um autoexame para saber o que falta. Este diálogo está em pleno andamento e a primeira fase do projeto dura até o fim de 2018. A segunda fase será dedicada a questões fundamentais, como traduzir um currículo em ações e projetos pedagógicos, desenvolver competências em sala de aula e fazer avaliações escolares coerentes com os novos conceitos.
Nova Escola
Professor Edgar Bom Jardim - PE